Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A vida é demasiado curta para cafés queimados

- tout court.

A vida é demasiado curta para cafés queimados

- tout court.

Um quilo de cada vez

20230925_125210-COLLAGE.jpg

 

Penso que quem me acompanhava de antes sabe que eu era uma mulher de peso que no ano passado por esta altura pesava 115 quilos, give or take. Depois consegui reduzir e a 31 de dezembro pesava 107,5 - peso que sabia prontinho para começar a subir, a minha mãe tinha falecido dias antes, tinhamos a casa dela para esvaziar, e como sou daquelas pessoas que com o stress engorda - não por magia, mas porque me vingo em doces e demais coisas que engordam muito - estava criada a tempestade perfeita. Tinha consulta com a a médica de família, falei-lhe disso, e ela prescreveu-me o semaglutido na dose mais elevada do mercado, a ser injetado uma vez por semana. Consegui entrar para a lista de uma farmácia e comecei, felizmente, a fazer o tratamento na semana seguinte.

 

E não foi um passeio no parque.

 

Disseram-me que deveria fazê-lo ao sábado, que pouco depois passou para domingo - e por sugestão do Victor, ao deitar - porque aquela coisa deixava-me enjoada - tipo 5 minutos depois da aplicação - e com os nervos à flor da pele, irritadíssima, tudo geravava complicação, ficava muito embirrante. Paralelamente, como fisicamente ficava abaladíssima, tinha de me deitar, e o fim de semana era desperdiçado. 

Ao passar a fazê-lo ao domingo à noite, recuperei o fim de semana passando a sacrificar a segunda feira - tensão baixinha, muitas náuseas, tonturas... no entanto, tudo expectável. 

 

E comer? perguntam vocês. Primeiro mês, praticamente não conseguia comer, só quantidades pequenas de algo com o mínimo aroma possível - senão vomitava. Se aumentava a quantidade, idem. Se me entrava pelo nariz algum cheiro (a comida) mais forte, tunga. Se o café não fosse dos melhores, saia do café e tau (aconteceu uma vez e foi super hiper embaraçoso - para o contornar descobri que se comesse algo, de preferência uma miniatura, com o dito, deixando a última dentada para depois do último gole, isso não acontecia). Penso que no final do segundo ou terceiro mês, o mau estar começou a diminuir ao longo da semana, e passei a conseguir jantar ao sábado. Refeições com amigos ou família só a partir de sexta e até domingo. 

 

Em agosto, interrompi: foi um mês sem o medicamento e a fazer asneiras - juro!!! vai daí quando recomecei, a primeira segunda feira fez-me andar a lamentar-me pelos cantos que ia deixar de fazer o tratamento, que aquilo era uma violência para o organismo, blá, blá, blá. Mas continuei, ainda vou continuar durante mais duas semanas, e depois acaba. Porque aquela coisa é tãããããão difícil de encontrar, e agora há quem precise mais que eu. 

 

A partir daí, vai mandar o meu bom senso e o ginásio. Vou continuar a pesar-me uma vez por semana, para controlo. Não quero ganhar peso, ponto. Perder algum seria um bónus, mas não me vou concentrar nisso. Manter é a palavra de ordem 

 

Resultado? Em um ano perdi 30 quilos, contando com os que perdi sozinha no inicio. Acima estão fotos do antes e do agora, sendo as do antes, de 2021, porque em 2022 fugi de tirar fotos de corpo inteiro - e se às vezes pensava nisso, olhava para a foto em que estou de vestido azul e fugia mais um bocadinho ...

 

O processo custou, mas valeu mesmo a pena. nunca pensei voltar a vestir  tamanho que visto agora. E, mais importante, mexer-me com a facilidade com que já o faço! Subir escadas sem ficar a cair para o lado, com os batimentos cardíacos assustadoramente altos... e sei, sei que não teria conseguido sozinha. Conheço-me demasiado bem, sei os meus pontos fortes e fracos, e meter-me nesta empreitada confiando apenas na minha força de vontade, teria sido apenas mais uma razão para me sentir mal por mais um rotundo fracasso.

 

E se vai sendo altura de ser assumido pela medicina que a obesidade é uma doença, logo, como qualquer outra, necessita de tratamento. Tratar a obesidade previne todas as doenças daí resultantes - alto colesterol, hipertensão, diabetes... é cortar pela raiz.

 

Então é mais que altura de nós, sociedade, deixarmos de olhar para as pessoas com excesso de peso como se estas fossem completa e inequivocamente responsáveis pelo mesmo, olhar de alto, com a superioridade de quem consegue estar acima das compulsões que o outro sinta e às quais, acredita, cede sem que lhe custe, sem que sinta culpado, sem sequer deixar abertura a que a história do individuo não seja preta ou branca, que haja tanto mais por detrás de cada história de cada um de nós, gordos ou magros porque, sim, cada pessoa é, sim, um mundo.

 

E se passássemos a ser melhores uns para os outros?

 

23 comentários

Comentar post

Pág. 1/2